quarta-feira, 1 de julho de 2015

O dia em que meus escritos já não eram meus

Eu andava na rua apressado. Nas mãos levava uma pequena maleta. Dentro dela, livros. Meus livros. Desculpe, nem me apresentei. Meu nome é Pablo, Pablo Furtado. Sou escritor. Escrevo sobre a vida. E tento a vida ganhar com as letras que ganham vida pelas minhas mãos. Por isso escrevo. E escrevo muito. E ando muito também, pra vender minhas histórias. Passo o dia todo na rua. De um lado pro outro. De porta em porta. À procura de quem queira comprar os mundos que já criei. Pena haver tantos que não saibam ler poesia.
Um dia, como tantos outros, andando por uma rua deserta, ouvi uma voz em tom de ameaça: — Me passa esse bagulho agora! — Aquele sujeito obviamente não tinha ideia do que continha a maleta. Meus mais preciosos bens. Petrificado, eu não sabia o que fazer. Achando que eu não o ouvira, ele repetiu a sentença com mais veemência e em tom ainda mais ameaçador. Tentei argumentar que comigo só havia livros, mas ele tomou das minhas mãos a maleta, num golpe só, e correu. Fiquei ali sozinho, sem entender direito o que havia acontecido. Sentei no banco da praça ao lado e baixei a cabeça. Olhei pra dentro de mim e vi o homem que levara meus livros.
Imaginei o que ele faria com o conteúdo da maleta. Por curiosidade, folhearia um dos livros. A luz refletiria no papel em direção ao seu rosto. Suas pupilas dilatariam e ele veria melhor. Ao enxergar daquele jeito pela primeira vez, um discreto sorriso visitaria sua face. Ele passaria os olhos, linha a linha, da primeira à última página. Aqueles escritos não mais me pertenciam e ele já não seria mais o mesmo. Estava escrito e se cumpriu. Sempre soube que o que escrevo mudaria a vida de alguém.
De volta à praça, pensei comigo mesmo que deveria agradecer àquele homem pelo que me fizera. Nunca ninguém valorizou minha arte daquele jeito. Eu me senti o escritor mais importante do mundo. Agora ando por aí, com maletas e mais maletas abarrotadas com meus livros, à espera de que eles sejam levados outra vez. Na primeira página de cada um deles, uma dedicatória escrita à mão: “Com carinho, àquele que, tomando estes escritos para si, merece não um duro castigo, mas a minha reverência.”

O conto 'O dia em que meus escritos já não eram meus' ficou em 3º lugar no I Concurso Literário ICBIE 2015, na categoria Conto e foi publicado no livro ‘Antologia das Obras Premiadas - 1º Concurso Literário ICBIE 2015’, da Editora Pinaúna. O ICBIE – Instituto Cultural Brasil Itália Europa – recebeu 58 obras para o concurso. 'O dia em que meus escritos já não eram meus' foi a única obra premiada da Região Norte.